
É dezembro.
Um mar de nuvens
Desliza por entre caravelas de cristal e coração.
Meus olhos cansados fogem da luz
Que tenta roubar-lhes o âmbar velado pela hora,
Mas ainda é muito cedo
Para que a noite redima a dor da falta.
Frente ao desdobrar em fogo das pétalas vincadas
Um mar de nuvens me atravessa.
O concreto entre ciprestes me lembra que alguns finais
São portas para o eterno.
O vento uiva por entre falésias do tempo
- estruturas derruídas pela dor– ,
Enquanto a alma repleta de ruínas e de rosas asfixiadas pelo silêncio
Segue rebanhos de algodões-doce que aos poucos
Se esvaem frente às proas em lâminas das caravelas:
Estranha força que ceifa o viço
Mergulhando luz em sombra
E tornando-nos, desta forma,
Vulneráveis.
A vida – um pouco mais vazia –
Segue
E ignora a ferida viva da lembrança
Sento-me na calçada,
E com olhar pousado no vazio
Entre o sob e o sobre,
Submerso no imenso universo do pensamento,
Vejo frágeis estruturas que o tempo desconhece:
Catedrais erigidas na dimensão intangível da alma
Nelas vejo que algumas distâncias
Não permitem diálogos,
Apenas a tessitura de silentes versos
De pungentes lembranças.
©Anderson Christofoletti

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