quinta-feira, 12 de agosto de 2010

COSTUME DO PAPEL

Algumas pessoas, já há algum tempo, relatam uma certa curiosidade em saber de onde tiro as idéias e quais as fontes que alimentam muitos textos que escrevo.


Pra ser sincero acho impossível descrever absolutamente tudo que passa pela minha cabeça durante o processo de concepção de um texto.Mas, em consideração a algumas destas pessoas ,tentarei dissecar este processo, mesmo porque tenho a mesma curiosidade em relação a muitos textos que leio de autores conhecidos e desconhecidos também.



PS.COM TODO RESPEITO E ADMIRAÇÃO À SUBJETIVIDADE E À LIBERDADE DE INTERPRETAÇÃO DE CADA UM!!!!!



Usarei o texto “Costume do Papel” como exemplo.



Para mim, escrever um texto consiste na resultante de vários estímulos que capto num determinado intervalo de tempo.Neste caso posso citar pelo menos três fontes que atuaram na confecção do texto:



1- Um fragmento do primeiro canto ( Paraíso ) da Divina Comédia de Dante Aligieri:



“Por várias portas surge refulgente
A lâmpada do mundo; mas daquela,
Onde orbes quatro brilham juntamente

Com três cruzes, caminha sob estrela
Melhor, em modo que a mundana cera
Mais ao seu jeito retempera e assela.”


2-A canção “Cinema Paradiso” interpretada por Dulce Pontes:







3-A tela de Renè Marrete :La chiave dei campi









Há algumas características que alguns costumam chamar de “estilo” que carrego em quase todos os textos que escrevo.

Se o leitor observar bem alguns textos de minha autoria, perceberá que adoto algumas características comuns ao movimento surrealista (principalmente na pintura).Fascina-me a idéia de manter alguns signos presentes em quase tudo que escrevo,além de sempre tentar transpor coisas inconscientes para o papel:

Também a idéia de luz e sombra, branco e preto, realidade e sonho, sólido e abstrato,etc(antíteses).

Quase como se fosse uma “assinatura”.



Neste texto em específico tento expressar a idéia do sonho que ,numa tentativa de se tornar real ,transpõe o táctil e converge para o sublime: aquelas coisas que não conseguimos expressar em palavras,mas que sentimos com absoluta nitidez.

Isto que denomino sublime pode ser observado nos olhos da verdade-criança(ingenuidade,inocência),na viagem oblíqua dos olhos (não dissimulados como os de Capitu),brancas nuvens,abraços,etc



O título surgiu do hábito que tenho de colher todas estas sensações e transpô-las para o papel.





Costume Do Papel





Veja,

A incógnita sombra

Orbita sobre a resposta em flor

Refletida na pupila

Da verdade-criança.



Entre um quadrado e outro de giz

O asfalto lê a velha infância

Dos homens de passos apressados.



Num serpentear súbito

O vento golpeia as asas

Fatigadas pela espera:

Viagem oblíqua dos olhos.



-Será que o sonho terminará

Antes do horizonte?



O verso-costume do papel-

Edifica-se no silêncio

Vertical dos sonhos;

Na sombra da palavra extinta.



-Seria este um adormecimento da vida?



Sortimento de signos deitados

Sobre brancas nuvens:

Alvas almas de rosas desabrochadas

Em auroras que ainda

Não romperam a fina casca da primavera.



Solene,

O sol desnuda os substantivos

E o vento carrega as metáforas

No verso

Das folhas secas.

- Escuta a chuva na janela,escuta...

Alguns sentimentos ainda são inefáveis;

Abraços ainda compartilham

Coisas que as palavras desconhecem.


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