quinta-feira, 29 de setembro de 2011

ESPELHO



No espelho o reflexo do tempo:
Uma canção antiga, os olhos de meu avô,
As palavras de meu pai
E esta parte de mim
Que procura desesperadamente
Pelo abraço que tanto relutei
Em dar.

Imagens, sons, gestos
Que tantas vezes
Desejei partir em fragmentos
Tão ínfimos
Que coubessem na caixa
Do esquecimento
E que, hoje,
Emolduro em minha parede
Para sobreviver a mim mesmo.

Vejo o quanto o tempo
Teme a aceitação da terra aos sulcos
Das impiedosas relhas do primeiro.
O quanto a sombra
Teme a luz
E o silêncio, a palavra.

Algumas frases herdadas
Me revelam as vísceras
Arquitetônicas do que hoje sou.
Abro então o livro dos dias
E percebo que sou
A página das reticências...

...Minha parede pede
Por uma janela plena de horizonte;
Plena de um azul que possa comportar
Meu infinito de páginas incólumes,
De palavras aladas...
Que possa ser substrato
Para uma caneta que teima em sangrar inquietação.

O espelho?
O espelho guardará o que fui
Para que possa lembrar sempre
De quem sou
E daquele que posso ser.



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